Quanto custa manter provisórios por meses numa reabilitação estética e como isso entra no preço do caso?
A fase provisória de uma reabilitação estética custa peça, horas de manutenção, retrabalho e prazo de caixa. Veja os 5 componentes do custo, as taxas de fratura e descimentação medidas em estudos clínicos, a fórmula para colocar a fase no preço e o que o CDC e o Código de Ética Odontológica exigem do orçamento.
Manter provisório por meses custa a peça, as consultas de manutenção, a reserva de retrabalho e o custo financeiro do prazo. Como um estudo alemão de 2025 registrou falha por fratura em 14,1% e descimentação em 18,1% de 71 provisórios longos em compósito CAD/CAM (mediana de 362 dias), essa fase precisa de linha própria no preço.
- Provisório longo fratura e solta com frequência medida. No estudo do Hospital Universitário de Regensburg (Alemanha), com 44 pacientes e 71 provisórios de longa duração em compósito CAD/CAM e mediana de 362 dias de observação, houve falha por fratura em 14,1% e descimentação em 18,1% das peças (Dold et al., Clinical Oral Investigations, 2025).
- O desenho da peça muda o custo de retrabalho. No Hospital Universitário de Tübingen (Alemanha), com 27 pacientes, 45 próteses provisórias de longa duração em PMMA fresado tiveram 11 complicações em 9 peças num acompanhamento de 2 a 26 meses, e 3 das 8 com cantiléver precisaram ser removidas em até 8 meses (Huettig et al., Clinical Oral Investigations, 2016).
- Caso que atravessa o ano precisa de regra de preço escrita. O art. 40 do Código de Defesa do Consumidor exige orçamento com mão de obra, materiais, condições de pagamento e datas de início e término, e o subitem Dentista do IPCA acumulou 9,20% em 12 meses até agosto de 2026, contra 4,22% do IPCA geral, segundo o IBGE.
Faz parte do guia: Quanto custa e qual o retorno do marketing para clínica odontológica?
Nesta página
- TL;DR
- Pontos-chave
- Por que a fase provisória existe (e por que ela dura meses)
- Quanto tempo dura a fase provisória em cada tipo de caso
- Os 5 componentes do custo de manter provisório
- Quanto o provisório longo quebra, segundo os estudos clínicos
- Como transformar taxa de intercorrência em reserva de retrabalho
- Material do provisório é decisão de custo, não só clínica
- Hora clínica ou markup: como precificar a fase provisória
- Provisório incluso ou cobrado à parte?
- O que o orçamento precisa dizer, segundo o CDC
- O que o Código de Ética Odontológica exige na cobrança
- Caso que atravessa o ano: inflação do serviço e cláusula de reajuste
- Abandono e adiamento no meio do caso: o pagamento por fase protege o caixa
- A fórmula da fase provisória (com exemplo hipotético)
- Como apresentar a fase provisória ao paciente sem perder o caso
- Erros comuns na precificação da fase provisória
- Seu próximo passo
- Perguntas frequentes
"Quanto custa manter provisórios por meses numa reabilitação estética e como isso entra no preço do caso?"
Você fecha a reabilitação estética, entrega os provisórios e o paciente sai encantado.
Meses depois, o caso ainda não terminou. E a margem sumiu no caminho.
Ninguém errou o preço da cerâmica. O prejuízo mora na fase do meio.
É a consulta de ajuste que ninguém cobrou, o provisório que fraturou numa sexta à noite, o reembasamento que não estava no orçamento e o laboratório que você pagou antes de receber a parcela do paciente.
A resposta curta: manter provisório por meses custa cinco coisas. A peça, as horas de cadeira da manutenção, o retrabalho, o custo de oportunidade da cadeira e o custo financeiro do prazo.
E o retrabalho não é exceção. Num estudo retrospectivo do Hospital Universitário de Regensburg (Alemanha) publicado em 2025, com 44 pacientes e 71 provisórios de longa duração, houve falha por fratura em 14,1% e descimentação em 18,1% das peças, com mediana de 362 dias de observação (Dold et al., Clinical Oral Investigations, 2025).
Ou seja: se a fase provisória não tem linha própria no preço, quem paga por ela é a sua margem.
Neste guia você vai ver:
- Por que a fase provisória existe e por que ela se estende por meses
- Os 5 componentes do custo e onde cada um se esconde
- O que os estudos clínicos mediram de fratura, descimentação e cantiléver
- Como transformar taxa de intercorrência em reserva de retrabalho
- Hora clínica, markup e a fórmula que coloca a fase no orçamento
- O que o CDC e o Código de Ética Odontológica exigem do orçamento
- Reajuste e pagamento por fase no caso que atravessa o ano
Por que a fase provisória existe (e por que ela dura meses)
A fase provisória não é enrolação. É etapa clínica com função própria, e é ela que protege o resultado da peça definitiva.
Os motivos mais comuns para ela se estender:
- Osseointegração: o implante precisa de tempo antes da carga definitiva, e o paciente não pode passar esse período sem dente na região estética.
- Teste de dimensão vertical (DVO) e de estética: o provisório vira ensaio. O paciente testa fonética, mastigação, conforto e aparência antes de você fixar tudo em cerâmica.
- Reavaliação periodontal: pilar de prognóstico duvidoso precisa de tratamento e observação antes de você decidir se ele fica ou sai.
- Enxerto ósseo e cicatrização de tecido mole: cada cirurgia adicional acrescenta uma janela de espera.
- Execução em segmentos: caso extenso é feito por arcada ou por região, e o segmento que espera fica em provisório.
O artigo de Regensburg descreve esse cenário: quando é preciso tratar ou monitorar pilares de prognóstico questionável por mais tempo, provisórios de longa duração podem ser usados durante a terapia periodontal ou a avaliação contínua de risco (Dold et al., 2025).
Pensa assim: o provisório é o protótipo do caso.
E protótipo que fica meses em boca tem custo de manutenção.
Quanto tempo dura a fase provisória em cada tipo de caso
Quem define a duração é a biologia, não a agenda. Mas dá para agrupar os cenários por risco de custo:
| Cenário clínico | Duração da fase provisória | Risco de custo |
|---|---|---|
| Teste de DVO e de estética antes da cerâmica | Semanas | Baixo: poucas consultas, peça direta costuma resolver |
| Implante aguardando osseointegração | Meses | Médio: manutenção periódica e risco de soltura |
| Enxerto ósseo ou dentição de prognóstico incerto | Muitos meses; em Tübingen (Alemanha, 2016), provisórios de pacientes com dentição comprometida foram acompanhados por 2 a 26 meses (mediana de 13) | Alto: várias consultas e retrabalho provável |
| Provisório de longa duração planejado (terapia periodontal, avaliação de pilares) | Até três anos, segundo o artigo de Regensburg | Muito alto: pede peça indireta e reserva de retrabalho |
Os dois estudos clínicos usados neste guia mostram a escala real:
- Em Regensburg, a mediana de observação dos provisórios de longa duração foi de 362 dias (Dold et al., 2025).
- Em Tübingen, próteses provisórias em PMMA de pacientes com dentição comprometida foram acompanhadas por 2 a 26 meses, com mediana de 13 meses (Huettig et al., Clinical Oral Investigations, 2016).
Nota: o prazo que você promete ao paciente é estimativa clínica. O orçamento precisa ter a data prevista e a regra do que acontece se a biologia pedir mais tempo. Isso volta na seção sobre o CDC.
Os 5 componentes do custo de manter provisório
Aqui está o coração da conta. O custo da fase provisória não é "o preço do provisório".
São cinco linhas. Só a primeira aparece na nota do laboratório.
1. A peça: laboratório ou material
É a parte visível, e varia com a técnica:
- Resina direta ou bisacrílica em boca: material barato, mas consome tempo de cadeira na confecção.
- PMMA fresado (CAD/CAM): peça indireta, com nota de laboratório maior.
- Compósito resinoso CAD/CAM: outra opção indireta, com dado clínico próprio (é o material do estudo de Regensburg).
- Resina impressa em 3D: custo e desempenho dependem da resina e do protocolo do laboratório.
2. Hora clínica das consultas de manutenção
Cada retorno para ajuste, polimento, controle oclusal ou higienização consome hora de cadeira. Ninguém cobra por ele, e ele se repete.
A conta: número de consultas previstas × duração média × custo da sua hora clínica. Se você ainda não tem esse último número, comece por calcular o custo da hora de cadeira.
3. Retrabalho: fratura, descimentação, reembasamento, repreparo
É a linha que mais some do orçamento. Provisório que fratura, que solta, que precisa de reembasamento depois da cicatrização ou de repreparo porque o tecido mudou.
Cada evento consome cadeira, material e, às vezes, laboratório de novo. E costuma cair como encaixe, desorganizando a agenda do dia.
4. Custo de oportunidade da cadeira
Com agenda cheia, a hora gasta recimentando provisório é uma hora que não produziu procedimento pago. Esse custo não aparece em nota nenhuma, mas existe.
Com agenda ociosa, ele é pequeno. Com agenda lotada, ele pode pesar mais que o próprio custo da hora.
5. Custo financeiro do prazo
Você paga o laboratório na entrega da peça. O paciente paga em parcelas, muitas vezes atreladas ao caso inteiro.
Na prática, a clínica financia a fase provisória. Quanto mais longa a fase e mais parcelado o recebimento, maior esse custo.
Veja as cinco linhas lado a lado:
| Componente | Como medir | Onde costuma se esconder |
|---|---|---|
| Peça | Nota do laboratório ou material + tempo de confecção | Só a primeira peça entra no preço |
| Manutenção | Consultas previstas × duração × custo da hora clínica | Retorno "de cortesia" que ninguém registra |
| Retrabalho | Eventos esperados × custo médio de um evento | Encaixe de urgência e refação de laboratório |
| Oportunidade | Margem da hora que deixou de ser vendida | Agenda cheia e fila de casos novos |
| Financeiro | Valor adiantado × custo do dinheiro × meses até receber | Laboratório pago antes, paciente parcelado |
Quanto o provisório longo quebra, segundo os estudos clínicos
Aqui a conversa sai do "acho" e vai para o dado.
Os próprios autores de Regensburg registram que os dados sobre o desempenho clínico de provisórios de longa duração ainda são escassos. Mas os estudos que existem apontam na mesma direção.
Regensburg, 2025: quanto o compósito CAD/CAM fratura e solta
Estudo retrospectivo do Hospital Universitário de Regensburg (Alemanha), publicado em 2025:
- 44 pacientes e 71 provisórios de longa duração (12 coroas parciais, 31 coroas e 28 próteses fixas) em compósito resinoso CAD/CAM.
- Mediana de observação de 362 dias.
- Falha por fratura em 14,1% e descimentação em 18,1% de todas as peças.
- Sem diferença estatisticamente significativa na taxa de falha entre coroas parciais, coroas e próteses fixas.
- A probabilidade de descimentação foi significativamente maior nas peças cimentadas com cimento provisório ou autoadesivo do que nas cimentadas de forma adesiva.
Fonte: Dold, Mueller, Butz e Hahnel, Clinical Oral Investigations, 2025.
Os autores concluem que a cimentação adesiva pode ajudar a reduzir a probabilidade de descimentação.
Tradução para o seu caixa: a técnica de cimentação é decisão de custo, porque cada descimentação vira uma consulta que ninguém paga.
Tübingen, 2016: PMMA fresado e o problema do cantiléver
Estudo do Hospital Universitário de Tübingen (Alemanha) com provisórios de longa duração em PMMA fresado:
- 27 pacientes com dentição comprometida (prognóstico dental incerto ou adiamento de uma opção removível).
- 45 próteses fixas de 3 ou 4 elementos: 37 com pilar nas duas pontas e 8 com cantiléver.
- Acompanhamento de 2 a 26 meses (mediana de 13 meses).
- 11 complicações em 9 das 45 peças, entre elas 4 perdas de retenção e 5 fraturas completas.
- 3 das 8 próteses com cantiléver precisaram ser removidas em até 8 meses.
- As de desenho padrão, com pilar nas duas pontas (n = 37), tiveram sobrevida estimada de 90,4% e taxa livre de complicação de 88,3% para 16 meses.
Fonte: Huettig et al., Clinical Oral Investigations, 2016.
Os autores concluem que próteses com cantiléver e reconstruções sobre pilares com prognóstico biológico muito reduzido ou com intervenção endodôntica tiveram alta taxa de falha.
Os dois estudos lado a lado
| Critério | Regensburg (2025) | Tübingen (2016) |
|---|---|---|
| Material | Compósito resinoso CAD/CAM | PMMA fresado (CAD/CAM) |
| Amostra | 44 pacientes, 71 peças | 27 pacientes, 45 peças |
| Tempo | Mediana de 362 dias | 2 a 26 meses (mediana de 13) |
| Achado principal | Fratura em 14,1% e descimentação em 18,1% das peças | 11 complicações em 9 peças; 3 de 8 cantiléveres removidos em até 8 meses |
| Lição de custo | Cimentação adesiva pode reduzir a descimentação | Evite cantiléver em provisório longo |
Lembre: intercorrência em provisório longo não é azar nem falha da equipe. É frequência medida. Se o seu preço trata como exceção, cada fratura sai da sua margem.
Como transformar taxa de intercorrência em reserva de retrabalho
A lógica é a de seguro. Você não sabe qual paciente vai fraturar o provisório, mas sabe que alguns vão.
Então embute em todos os casos uma fração que paga os eventos de quem precisar.
Passo a passo:
- Levante o seu histórico. Quantos provisórios longos a clínica instalou no último ano e quantas intercorrências (fratura, descimentação, reembasamento, refação) cada caso gerou. Prontuário e agenda de encaixe mostram isso.
- Compare com a literatura. Se o seu histórico mostra muito menos intercorrência do que os estudos acima, suspeite primeiro do registro: retorno de cortesia costuma não ir para o prontuário.
- Calcule o custo médio de um evento. Tempo de cadeira × custo da hora clínica + material + laboratório, quando há refação.
- Multiplique: eventos esperados por caso × custo médio de um evento. Esse é o valor da reserva.
- Ajuste pelo risco do caso. Cantiléver, pilar de prognóstico duvidoso e fase longa pedem reserva maior. Teste curto de DVO pede reserva menor.
Mas tem um detalhe: não some a taxa de fratura e a de descimentação de um estudo como se cada peça tivesse no máximo um problema.
Uma mesma peça pode ter mais de uma intercorrência. Em Tübingen foram 11 complicações em 9 peças. Por isso, a base da conta é o número de eventos do seu histórico, não o número de peças.
Material do provisório é decisão de custo, não só clínica
A escolha do material define quanto você gasta hoje e quanto vai gastar em retrabalho depois.
O artigo de Regensburg resume a regra geral: na maioria dos casos, provisórios feitos por técnica direta são usados por períodos mais curtos, como semanas ou meses, enquanto os feitos por técnica indireta (CAD/CAM) podem ser usados por até três anos (Dold et al., 2025).
E, entre os indiretos, os mesmos autores registram que o compósito resinoso CAD/CAM teve taxas de falha semelhantes às relatadas para provisórios de longa duração em PMMA.
| Opção | Custo na entrega | Tempo de cadeira na confecção | Uso descrito na literatura | Retrabalho em fase longa |
|---|---|---|---|---|
| Resina direta ou bisacrílica | Baixo (material) | Alto | Semanas ou meses, na maioria dos casos (Regensburg) | Cresce se a fase se alonga |
| PMMA fresado (CAD/CAM) | Maior (laboratório) | Baixo | Técnica indireta: até três anos (Regensburg) | Sobrevida estimada de 90,4% com desenho padrão; 3 de 8 cantiléveres removidos (Tübingen) |
| Compósito resinoso CAD/CAM | Maior (laboratório) | Baixo | Técnica indireta: até três anos (Regensburg) | Fratura em 14,1% e descimentação em 18,1% das peças (Regensburg) |
| Resina impressa em 3D | Varia com a resina e o protocolo | Baixo | Confirme a indicação de tempo de uso declarada pelo fabricante | Peça ao laboratório o histórico de refação dele |
A pergunta certa não é "qual é o mais barato". É "qual sai mais barato até a cerâmica".
Um provisório direto refeito várias vezes numa fase longa pode custar mais que uma peça fresada. Para repassar laboratório e material sem comer margem, veja como embutir material e laboratório no preço.
Hora clínica ou markup: como precificar a fase provisória
São dois métodos. Funcionam melhor juntos.
Método da hora clínica
Você soma os custos fixos do mês (aluguel, folha, pró-labore, sistemas, depreciação) e divide pelas horas produtivas de cadeira. O resultado é o custo de cada hora clínica.
Na fase provisória, ele responde o que a nota do laboratório não responde: quanto custam as horas de manutenção e de retrabalho.
Método do markup sobre o custo total
Depois de somar todos os custos diretos do caso, inclusive a fase provisória, você aplica um markup que cobre impostos, taxas, comissões e margem.
O erro comum é aplicar markup só sobre a nota do laboratório. A hora de manutenção e o retrabalho ficam fora da base, e o markup multiplica um custo incompleto.
Por que a fase provisória longa precisa de linha própria
Num tratamento curto, as horas de manutenção se diluem no preço do procedimento.
Num caso que passa meses em provisório, elas não se diluem. Elas se acumulam.
Por isso a fase provisória longa pede uma linha própria de horas e de retrabalho na planilha de custo, mesmo que o paciente veja um preço único.
Provisório incluso ou cobrado à parte?
Existem três desenhos, e cada um tem um risco diferente:
| Modelo | Como funciona | Vantagem | Risco |
|---|---|---|---|
| Preço fechado, provisório incluso | A fase entra no valor do caso, sem linha visível | Orçamento simples, menos objeção | Se a reserva não está no custo, toda intercorrência sai da margem |
| Fase provisória como linha própria | Peça, manutenção e reserva aparecem no orçamento | Transparência e valor percebido da fase | Paciente pode querer "cortar" a linha |
| Incluso com limite de intercorrências | O preço cobre um número definido de eventos; o excedente é cobrado por evento | Protege a margem em caso de risco alto | Exige regra escrita e comunicada antes da aprovação |
Mesmo com preço fechado, provisório, consulta de manutenção e reembasamento são procedimentos distintos, cada um com tempo e material próprios.
Se a clínica atende convênio, confira na tabela da operadora como cada um desses itens aparece. É um bom espelho para separar as linhas de custo internamente.
Um alerta: anunciar o provisório como "grátis" ou "brinde" esbarra no Código de Ética Odontológica. O art. 20 trata como infração ética oferecer serviços gratuitos a quem possa remunerá-los adequadamente (inciso I) e permitir o oferecimento de serviços, ainda que de forma indireta, como forma de brinde, premiação ou descontos (inciso VIII).
E o código não se dirige só ao dentista: o art. 1º inclui também as pessoas jurídicas que exercem atividades na odontologia.
O que o orçamento precisa dizer, segundo o CDC
O Código de Defesa do Consumidor, art. 40, obriga o fornecedor de serviço (a clínica, ou o dentista que atende como pessoa física) a entregar ao consumidor orçamento prévio discriminando:
- o valor da mão de obra;
- os materiais e equipamentos a serem empregados;
- as condições de pagamento;
- as datas de início e término dos serviços.
Os parágrafos do mesmo artigo mudam a conta da fase provisória:
- Validade: salvo estipulação em contrário, o valor orçado vale por dez dias, contados do recebimento pelo consumidor (§ 1º).
- Aprovado, obriga: uma vez aprovado, o orçamento obriga as partes e só pode ser alterado por livre negociação (§ 2º).
- Terceiros não previstos: o consumidor não responde por ônus ou acréscimos de serviços de terceiros não previstos no orçamento prévio (§ 3º).
O § 3º é o que mais pesa aqui.
O laboratório é um terceiro. Se a refação do provisório pelo laboratório não estava prevista no orçamento aprovado, você não repassa depois.
Veja como cada exigência se traduz na fase provisória:
| Exigência do art. 40 | Como aplicar na fase provisória |
|---|---|
| Mão de obra | Consultas de manutenção previstas e o que acontece em intercorrência |
| Materiais | Tipo de provisório (direto, fresado, impresso) e número de peças |
| Condições de pagamento | Quanto é pago em cada fase, e quando |
| Datas de início e término | Data prevista de cada fase e regra para quando a biologia pede mais tempo |
| Validade (§ 1º) | Prazo escrito, se for diferente dos dez dias |
| Terceiros (§ 3º) | Refação de laboratório prevista, com critério e valor |
Nota: este guia organiza a lógica de precificação. A redação final do orçamento e do contrato de caso longo deve passar pelo seu jurídico.
O que o Código de Ética Odontológica exige na cobrança
O Código de Ética Odontológica (Resolução CFO-118/2012) tem três pontos que conversam direto com a fase provisória.
Antes, quem ele alcança: o art. 1º regula os direitos e deveres do cirurgião-dentista, dos profissionais técnicos e auxiliares e das pessoas jurídicas que exercem atividades na odontologia, segundo suas atribuições específicas. A clínica não fica de fora por ser empresa.
1. Critérios de honorário (art. 19). Na fixação dos honorários, o código manda considerar, entre outros pontos, a complexidade do caso, o tempo utilizado no atendimento, o caráter de permanência, temporariedade ou eventualidade do trabalho e o custo operacional. A fase provisória longa toca em todos eles.
2. Comunicar antes (art. 19, parágrafo único). O profissional deve arbitrar o valor da consulta e dos procedimentos comunicando previamente ao paciente os custos dos honorários profissionais.
3. Esclarecer e não surpreender (art. 11, IV, e art. 20, V). Constitui infração ética deixar de esclarecer adequadamente os propósitos, riscos, custos e alternativas do tratamento. E também abusar da confiança do paciente submetendo-o a tratamento de custo inesperado.
O que isso significa na prática?
A reserva de retrabalho e a regra de cobrança de intercorrência precisam estar no orçamento que o paciente aprovou. Cobrança que aparece só quando o provisório quebra é exatamente o custo inesperado que o código veda.
Caso que atravessa o ano: inflação do serviço e cláusula de reajuste
Reabilitação com fase provisória longa costuma atravessar a virada do ano. E o preço travado na assinatura envelhece enquanto o caso anda.
O subitem Dentista do IPCA acumulou 9,20% em 12 meses até agosto de 2026, contra 4,22% do IPCA geral no mesmo período, no Brasil, segundo o IBGE (IPCA Dentista, SIDRA tabela 7060; IPCA geral, SIDRA tabela 1737).
A variação do preço do serviço odontológico ao consumidor foi mais do que o dobro da variação do índice geral nesse período. Quem entrega a cerâmica muitos meses depois ao preço da assinatura entrega o fim do caso com preço defasado.
Dois cuidados legais:
- Índice definido no contrato. O CDC veda ao fornecedor aplicar fórmula ou índice de reajuste diverso do legal ou do contratualmente estabelecido (art. 39, XIII, do Código de Defesa do Consumidor). Sem índice escrito, não há reajuste que se sustente.
- Periodicidade mínima. A Lei 10.192/2001, art. 2º admite reajuste por índices de preços em contratos com prazo igual ou superior a um ano, e o § 1º declara nula de pleno direito a estipulação de reajuste com periodicidade inferior a um ano.
Veja o passo a passo em como travar o preço do plano completo entre as fases.
Abandono e adiamento no meio do caso: o pagamento por fase protege o caixa
A fase provisória é o ponto de maior risco de abandono.
O paciente já está com dentes bonitos em boca. A dor sumiu, a urgência também. E a parte mais cara do caso ainda não começou.
Se o recebimento está atrelado ao caso inteiro e parcelado de forma linear, a clínica fica exposta: pagou laboratório, investiu horas, e o paciente para de comparecer.
A estrutura que protege o caixa:
- Pagamento por fase: planejamento, cirurgia, fase provisória e definitiva com valor e momento de pagamento próprios, previstos no orçamento aprovado.
- Fase provisória paga antes de terminar: o que a clínica adianta ao laboratório não deve depender de parcela que só vence depois da cerâmica.
- Regra escrita para adiamento: o que acontece com o preço e com o cronograma se o paciente para de vir. É aqui que a janela de preço travado e o índice de reajuste entram.
- Acompanhamento ativo: próxima manutenção agendada antes de o paciente sair da cadeira, lembrete e retomada de quem falta.
Veja por que o paciente abandona o tratamento no meio e como reduzir isso.
A fórmula da fase provisória (com exemplo hipotético)
É assim que fica:
Custo da fase provisória = peça + (nº de consultas × duração × custo da hora clínica) + reserva de retrabalho + custo financeiro
Onde:
- Reserva de retrabalho = eventos esperados por caso × custo médio de um evento.
- Custo financeiro = valor adiantado × custo mensal do dinheiro × meses até receber.
- Custo de oportunidade entra como linha extra quando a agenda está cheia.
Depois, aplique o seu markup sobre o custo total do caso, com a fase provisória dentro da base.
Exemplo hipotético
Suponha, com valores ilustrativos que não são referência de mercado: reabilitação estética superior com 10 provisórios fresados e fase provisória planejada de 6 meses, em clínica com agenda sem fila (custo de oportunidade zero).
| Linha (exemplo hipotético) | Premissa suposta | Valor suposto |
|---|---|---|
| Peça | Provisórios fresados pelo laboratório | R$ 2.000 |
| Manutenção | 6 consultas de 45 minutos, hora clínica de R$ 400 | R$ 1.800 |
| Reserva de retrabalho | 2 eventos esperados, cada um com 1 hora de cadeira (R$ 400) e R$ 150 de material ou laboratório | R$ 1.100 |
| Custo financeiro | R$ 2.000 adiantados ao laboratório, dinheiro a 1,5% ao mês, 5 meses até receber | R$ 150 |
| Custo da fase provisória | R$ 5.050 |
Digamos que o markup da clínica seja 1,8 (também hipotético). Nesse exemplo, a fase provisória sozinha representaria R$ 9.090 no preço do caso.
Agora compare com o cenário comum: a clínica aplica markup só na nota do laboratório. No mesmo exemplo, isso daria R$ 3.600, e os outros R$ 3.050 de custo sairiam da margem sem ninguém ver.
O número exato muda de clínica para clínica. A estrutura não muda: sem as linhas além da peça, você precifica só o que o laboratório cobra.
Como apresentar a fase provisória ao paciente sem perder o caso
Linha nova no orçamento gera pergunta. A resposta certa transforma custo em valor percebido.
Repare nestes pontos:
- Chame pelo que ela entrega. "Fase de teste e proteção do resultado" comunica mais que "dente provisório".
- Mostre o cronograma. Fases, datas previstas e o que acontece se a cicatrização pedir mais tempo.
- Explique a regra de intercorrência antes. O que está coberto, o que é cobrado à parte e por quê.
- Apresente em parcelas por fase. O paciente decide melhor olhando o próximo passo do que um número único.
Paciente que entende por que a fase existe questiona menos o preço e falta menos às manutenções.
Erros comuns na precificação da fase provisória
- Provisório "de brinde". Não cobrar é diferente de não custar: a peça, as horas e o retrabalho existem do mesmo jeito.
- Não prever reembasamento. Depois de cirurgia e cicatrização, o tecido muda e o provisório pede ajuste. Fora do orçamento, isso sai da margem.
- Cantiléver em provisório longo. Em Tübingen, 3 das 8 próteses provisórias com cantiléver foram removidas em até 8 meses (Huettig et al., 2016).
- Cimentação que favorece a descimentação. Em Regensburg, peças com cimento provisório ou autoadesivo tiveram probabilidade de descimentação significativamente maior do que as cimentadas de forma adesiva (Dold et al., 2025).
- Prazo sem data de término no orçamento. O art. 40 do Código de Defesa do Consumidor exige datas de início e término. Sem elas, o caso que se alonga vira discussão.
- Preço travado sem índice nem janela. Caso que atravessa o ano sem cláusula de reajuste fica para trás da inflação do serviço.
- Não revisar o preço periodicamente. Reserva de retrabalho calculada uma vez e nunca conferida com o histórico real envelhece junto com a tabela.
Seu próximo passo
- Abra os últimos casos com fase provisória longa. Conte peças, consultas de manutenção e intercorrências de cada um. É o seu histórico real de custo.
- Monte a linha da fase provisória na planilha de preço. Peça, manutenção, reserva de retrabalho e custo financeiro, mais o custo de oportunidade se a agenda está cheia.
- Reescreva o modelo de orçamento. Mão de obra, materiais, pagamento por fase, datas de início e término e a regra de intercorrência comunicada antes da aprovação.
Com a margem do caso longo protegida, cada paciente de reabilitação que chega vale o que deveria valer. Se você quer previsibilidade também na outra ponta, com paciente que comparece na avaliação, Agende uma apresentação.
Perguntas frequentes
O provisório deve ser cobrado à parte na reabilitação estética?
Pode entrar no preço fechado ou aparecer como linha própria, desde que o custo esteja no preço e o orçamento seja claro. O art. 40 do CDC exige discriminar mão de obra, materiais, condições de pagamento e datas de início e término. O que não pode é a fase provisória ficar sem custo previsto e a intercorrência virar cobrança surpresa.
Com que frequência o provisório de longa duração fratura ou solta?
No estudo de Regensburg (Alemanha, 2025), com 71 provisórios de longa duração em compósito CAD/CAM e mediana de 362 dias de observação, houve falha por fratura em 14,1% e descimentação em 18,1% das peças. Em Tübingen (Alemanha, 2016), 45 próteses provisórias em PMMA fresado tiveram 11 complicações em 9 peças num acompanhamento de 2 a 26 meses.
Posso cobrar do paciente a refação do provisório pelo laboratório?
Só se ela estiver prevista no orçamento aprovado. O parágrafo 3º do art. 40 do CDC diz que o consumidor não responde por ônus ou acréscimos de serviços de terceiros não previstos no orçamento prévio, e o laboratório é um terceiro. Escreva a regra de intercorrência antes, com critério e valor.
Qual material de provisório sai mais barato numa fase longa?
O que sai mais barato até a cerâmica, não o de menor nota de laboratório. O estudo de Regensburg descreve que, na maioria dos casos, provisórios feitos por técnica direta são usados por semanas ou meses, enquanto os feitos por técnica indireta (CAD/CAM) podem ser usados por até três anos. Peça direta refeita várias vezes pode custar mais que a fresada.
Posso reajustar o preço se a fase provisória passar de um ano?
Só com índice e regra previstos no contrato. O CDC veda ao fornecedor aplicar índice de reajuste diverso do legal ou do contratualmente estabelecido (art. 39, XIII), e a Lei 10.192/2001 declara nula a estipulação de reajuste com periodicidade inferior a um ano. Defina índice público e janela de preço antes de o paciente assinar.
Como calcular a reserva de retrabalho da fase provisória?
Multiplique os eventos esperados por caso (fratura, descimentação, reembasamento, refação) pelo custo médio de cada evento em hora clínica, material e laboratório. Use o histórico da sua clínica como base e os estudos clínicos como teste de sanidade: se o seu registro mostra muito menos intercorrência, confira se os retornos de cortesia estão sendo anotados.