O que é a VRPO e a CBHPO na odontologia e minha clínica particular precisa seguir essas tabelas de preço?
VRPO e CBHPO são as tabelas referenciais da odontologia brasileira. Veja de onde vieram, como a FIPE-USP montou a escala em pontos, como virar ponto em reais no seu estado, o que a tabela não inclui, o que o Código de Ética e o CADE dizem sobre preço e por que ela serve de piso ético e régua de convênio, não de preço particular.
VRPO e CBHPO são referências de valor das entidades odontológicas nacionais, e a CBHPO só mede em pontos o peso relativo de cada procedimento: sua clínica particular não é obrigada a cobrar por elas, mas o Código de Ética pede evitar valores aviltantes abaixo delas.
- A CBHPO não é tabela de preço. O Relatório Final da FIPE (março de 2009), hospedado no site do CRO-PE, diz que ela "não informa o preço dos procedimentos", só a proporção que os preços devem guardar entre si, com a consulta valendo 100 pontos de honorário.
- Nenhuma das duas fixa o seu preço particular. O CRO-MG declara que não possui tabela de honorários, e o art. 19 do Código de Ética do CFO garante a liberdade para arbitrar honorários, vedado o aviltamento; o art. 21 pede evitar valores inferiores aos referenciais.
- Onde a tabela pesa de verdade é no convênio. Estudo de pesquisadores da UNESP de Araçatuba (Arquivos em Odontologia, 2011) com cinco planos de abrangência nacional encontrou desconto médio de 54,51% sobre os preços sugeridos pelo CFO na tabela VRCC.
Faz parte do guia: Quanto custa e qual o retorno do marketing para clínica odontológica?
Nesta página
- TL;DR
- Pontos-chave
- O que é a VRPO e o que é a CBHPO (resposta curta)
- De onde vieram essas tabelas: a linha do tempo de 1987 a 2021
- Quem faz a tabela e quem publica o valor do seu estado
- Como a FIPE montou a CBHPO: cinco atributos e a consulta valendo 100
- Por que a CBHPO não é uma tabela de preço
- Como transformar pontos em reais: o cálculo UH + UC na prática
- O que a tabela não inclui (e por que ela fica abaixo do preço particular)
- Minha clínica particular é obrigada a seguir a VRPO ou a CBHPO?
- A pegadinha do art. 21: o piso ético contra o aviltamento
- CADE e livre precificação: o que mudou de 2023 a 2025
- Publicidade de preço: o que a lei e o Código ainda dizem
- Onde a tabela realmente pesa: negociação com operadoras
- O abismo entre o que o convênio paga e a referência
- Como usar a VRPO e a CBHPO na clínica de R$ 100 mil+ por mês
- Onde encontrar a tabela do seu estado (e qual fonte evitar)
- Seu próximo passo
- Perguntas frequentes
"O que é a VRPO e a CBHPO na odontologia e minha clínica particular precisa seguir essas tabelas de preço?"
Você monta a tabela de preços da clínica e alguém solta: "mas e a VRPO?".
Aí vem a dúvida. Existe um preço oficial que você deveria respeitar? Cobrar acima dá problema? Cobrar abaixo dá problema?
A resposta curta: VRPO e CBHPO são tabelas referenciais, criadas pelas entidades nacionais de odontologia. A CBHPO, que substituiu a VRPO como referência, nem é uma tabela de preço: o Relatório Final da FIPE (março de 2009) diz que ela "não informa o preço dos procedimentos", só a proporção entre eles.
Sua clínica particular não é obrigada a cobrar por ela. Mas o Código de Ética usa os valores referenciais como piso contra o aviltamento, e no convênio ela é a régua de toda negociação.
Neste guia você vai ver:
- A diferença entre VRPO e CBHPO (e por que todo mundo ainda fala "tabela VRPO")
- A linha do tempo de 1987 até o portal do CFO em 2021
- Como a FIPE-USP transformou o trabalho do dentista em pontos
- Como virar ponto em reais no seu estado, com exemplo real da tabela do Paraná
- O que a tabela não inclui e por que ela fica abaixo do preço particular
- O que o Código de Ética, o CADE e a lei dizem sobre preço, desconto e anúncio
- Como usar a tabela na clínica de R$ 100 mil+ por mês sem virar refém dela
O que é a VRPO e o que é a CBHPO (resposta curta)
VRPO significa Valores Referenciais para Procedimentos Odontológicos. Foi a tabela de valores de referência aprovada pelas entidades nacionais em 2002, com valor em reais calculado a partir de custo fixo, custo variável e remuneração do dentista.
CBHPO significa Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Odontológicos. É a sucessora da VRPO: uma escala em pontos que mede o peso relativo de cada procedimento, separando honorário e custo operacional.
Por que muita gente ainda chama tudo de "tabela VRPO"? Hábito. A VRPO circulou por anos como "a tabela do CFO", e a CBHPO nasceu dela. O CRO-RS apresenta a CBHPO como substituta da tabela de referência VRPO.
| VRPO | CBHPO | |
|---|---|---|
| Nome completo | Valores Referenciais para Procedimentos Odontológicos | Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Odontológicos |
| Quando | Aprovada em setembro de 2002 | Relatório FIPE em março de 2009; lançamento oficial em maio de 2010 |
| Quem fez | Entidades nacionais (ABO, CFO, FIO, FNO) | CNCC (CFO, ABO, ABCD, FIO e FNO) com a FIPE-USP |
| O que entrega | Valor por procedimento, com custo e remuneração embutidos | Pontos relativos: UH (honorário) e UC (custo operacional) |
| Vira preço como | Valor já calculado | Pontos multiplicados pelo índice do estado |
| Status hoje | Base histórica, substituída pela CBHPO | Referência vigente, publicada por CROs e sindicatos |
Fontes da tabela: apresentação oficial da CBHPO hospedada pelo CRO-PR, CFO e Relatório Final da FIPE.
Lembre: VRPO é o nome antigo que pegou. Quando alguém fala "tabela VRPO" hoje, quase sempre está falando da CBHPO.
De onde vieram essas tabelas: a linha do tempo de 1987 a 2021
A história explica o propósito. Essas tabelas nasceram para dar ao dentista um parâmetro de remuneração num mercado sem regra de valor, principalmente diante de convênios e credenciamentos.
Segundo a apresentação oficial da CBHPO divulgada pelo CRO-PR, a Comissão Nacional de Convênios e Credenciamentos (CNCC) foi criada em 1987 justamente pela "falta de regulamentação dos valores dos procedimentos odontológicos".
| Quando | O que aconteceu |
|---|---|
| 1987 | Criação da CNCC, durante o VIII CIORJ |
| Janeiro de 1988 | Surge a TNCC, protótipo de tabela referencial para honorários |
| 1994 | A TNCC passa a se chamar VRCC |
| Setembro de 2002 | No CIOGO, fórum de ABO, CFO, FIO e FNO aprova a VRPO, antiga VRCC |
| 2007 | Entidades da CNCC contratam a FIPE-USP para validar a VRPO e construir a CBHPO |
| Abril de 2008 | Dentistas de todas as especialidades escolhem e ponderam, na FIPE, os atributos do trabalho odontológico |
| Dezembro de 2008 | Conclusão do rol de procedimentos |
| Março de 2009 | Relatório Final da FIPE |
| 11 de maio de 2010 | Lançamento oficial da CBHPO pela CNCC, em Brasília |
| Fevereiro de 2021 | CFO lança um novo portal da CBHPO |
Fontes: apresentação da CBHPO (CRO-PR), CFO, Relatório Final da FIPE e CRO-MT sobre o portal de 2021.
Repare no detalhe: a comissão que criou a tabela se chama Comissão Nacional de Convênios e Credenciamentos. Desde a origem, a tabela é um instrumento de negociação com terceiros pagadores. Não foi desenhada para dizer quanto uma clínica particular de alto ticket deve cobrar.
Quem faz a tabela e quem publica o valor do seu estado
São duas camadas diferentes, e confundir as duas gera boa parte da confusão.
Camada nacional: a escala de pontos. Quem constrói é a CNCC, que, segundo o CFO, é composta por CFO, ABO, ABCD, FIO e FNO. A metodologia foi feita pela FIPE, da USP, com representantes das especialidades.
Camada estadual: o valor em reais. A escala nacional só vira dinheiro quando alguém define quanto vale cada ponto no seu estado. Quem publica isso são os CROs e os sindicatos de odontologistas, como SOEPAR (PR) e SOERGS (RS).
O manual publicado pelo SOERGS resume a lógica:
- A UH (unidade de honorário) tem valor relativo fixo, definido pela metodologia da FIPE.
- O multiplicador da UH "pode variar de acordo com a realidade de cada Estado ou de profissional para profissional".
- A UC (unidade de custo) usa um índice multiplicador nacional.
- Cada estado atualiza anualmente o valor da sua UH em julho, e UH e UC são corrigidas anualmente em julho pelo INPC/IBGE.
O que isso significa na prática? Não existe "o preço da CBHPO" nacional. Existe a pontuação nacional e o multiplicador do seu estado, naquele ano.
Como a FIPE montou a CBHPO: cinco atributos e a consulta valendo 100
Aqui está a parte que quase ninguém explica e que muda como você lê a tabela.
Em abril de 2008, dentistas representando todas as especialidades se reuniram na FIPE e escolheram os atributos que definem o trabalho odontológico. Depois, deram um peso a cada um. O resultado, segundo o Relatório Final da FIPE:
| Atributo do trabalho do dentista | Peso |
|---|---|
| Tempo | 30 |
| Qualificação/atualização | 20 |
| Complexidade | 20 |
| Risco | 15 |
| Planejamento | 15 |
| Total | 100 |
Em seguida, cada especialidade pontuou a intensidade de cada atributo em cada procedimento, sempre tomando a consulta inicial como referência de 100 pontos. No relatório final, "todas as consultas odontológicas têm 100 pontos na valoração dos honorários".
A FIPE então comparou essa pontuação com a percepção de valor dos próprios dentistas, especialidade por especialidade, e ajustou as distorções usando o tempo em minutos registrado na VRPO.
E o custo operacional? Para essa escala, a FIPE usou a VRPO como base: uma listagem de 521 procedimentos distribuídos entre 14 especialidades. E fez uma limpeza importante.
Veja o que saiu da conta de custo:
- O salário do dentista. Segundo o relatório da FIPE, a VRPO embutia R$ 0,457 por minuto em todos os procedimentos, referentes ao salário médio do dentista. A FIPE excluiu esse valor da pontuação de custo, porque o trabalho do dentista já estava na escala de honorário.
- Livros e revistas. Foram tratados como parte da qualificação do profissional, não como custo do procedimento.
- Papelaria no diagnóstico. Desconsiderada, por ser valor pequeno demais para a precisão do resto.
- Adicional de risco em prótese. Retirado do custo, porque o risco já está no honorário.
Por isso a CBHPO tem duas colunas separadas: UH para honorário e UC (chamada de CO no relatório da FIPE) para custo operacional. O relatório avisa que as duas "expressam pontuações em escalas diferentes" e devem ser negociadas separadamente.
Por que a CBHPO não é uma tabela de preço
Esse é o ponto que resolve metade da sua dúvida.
A CBHPO foi desenhada para dizer quanto um procedimento vale em relação a outro, não quanto ele custa em reais. O Relatório Final da FIPE é literal:
"A CBHPO não informa o preço dos procedimentos. Apenas mostra qual a proporção que os preços dos procedimentos devem guardar entre si."
O mesmo relatório diz que, desde o início, o projeto "se preocupou em obter valores relativos dos procedimentos e não preços absolutos". O CRO-PE repete a mesma frase ao explicar a classificação aos inscritos.
Pensa assim: a CBHPO é uma régua de proporção. Na tabela divulgada pelo CRO-PR em 2018, por exemplo, o implante ósseo integrado vale 400 pontos de honorário, quatro vezes a consulta. Quanto vale o ponto, e quanto o seu mercado paga pelo implante inteiro, é outra conversa.
Como transformar pontos em reais: o cálculo UH + UC na prática
A conta é simples. O que complica é saber qual multiplicador usar.
Valor de referência = (UH × valor estadual da UH) + (UC × índice da UC)
Veja o exemplo real da tabela de valores da CBHPO divulgada pelo CRO-PR em 2018 (planilha do SOEPAR), com UH a 0,96 e UC a 0,46:
| Procedimento | UH | UH × 0,96 | UC | UC × 0,46 | Total na tabela | Fica de fora |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Consulta odontológica | 100 | R$ 96,00 | 10 | R$ 4,60 | R$ 100,60 | Nada |
| Implante ósseo integrado (por unidade) | 400 | R$ 384,00 | 210 | R$ 96,60 | R$ 480,60 | Outros insumos ("Negoc.") |
| Coroa metalocerâmica sobre implante | 600 | R$ 576,00 | 60 | R$ 27,60 | R$ 603,60 | Laboratório ("Negoc.") |
| Protocolo Branemark para quatro implantes | 1.200 | R$ 1.152,00 | 240 | R$ 110,40 | R$ 1.262,40 | Laboratório e insumos ("Negoc.") |
Leia com atenção a última coluna. Nos procedimentos de maior ticket, as partes mais caras aparecem como "Negoc.", a negociar. O total da tabela não é o preço do tratamento: é só honorário mais custo operacional.
Dois cuidados antes de usar qualquer número:
- Confira o ano. Os valores acima são da tabela de 2018. Pelo manual do SOERGS, UH e UC são atualizadas todo ano em julho.
- Confira o estado. O multiplicador da UH é estadual. O valor do Paraná não serve para São Paulo nem para o Rio Grande do Sul.
Nota: a CBHPO tem uma oitava área, a de cirurgia hospitalar, em que os procedimentos usam 17 portes em vez de UH, segundo o Relatório Final da FIPE. Para a rotina de consultório, UH e UC resolvem.
O que a tabela não inclui (e por que ela fica abaixo do preço particular)
Se você comparar o valor da tabela com o seu preço particular e achar que está "caro demais", pare. Você está comparando coisas diferentes.
A tabela deixa de fora, por desenho, partes que pesam no seu custo real:
- Laboratório. A FIPE não conseguiu acessar como a VRPO calculava esse item e recomendou tratá-lo à parte. Como sugestão, a CBHPO "poderá indicar o valor de 25% adicionais ao valor dos honorários", e, quando o laboratório passar disso, a negociação direta entre as partes (Relatório Final da FIPE).
- Insumos de valor variável. O manual do SOERGS diz que não estão incluídos "a parte laboratorial e outros insumos que podem variar de valor na aquisição como, por exemplo, o implante odontológico".
- Custo de aquisição de paciente. A UC mede o custo operacional do procedimento, segundo a FIPE. O custo de trazer o paciente de alto ticket até a cadeira (mídia, CRC comercial, follow-up de orçamento) é do seu negócio, e só entra no preço se você colocar.
- Impostos e taxas financeiras. O relatório da FIPE não menciona tributo, taxa de cartão nem custo de financiamento ao paciente. Trate esses itens no seu preço, não na tabela.
- Estrutura e posicionamento. A escala trabalha com médias. A depreciação de equipamentos, por exemplo, segue o cálculo padrão da VRPO sobre o valor médio investido na montagem do consultório, segundo o relatório da FIPE. Ela não enxerga tecnologia própria, planejamento digital, hotelaria nem o nível de especialização da sua equipe.
O implante é o exemplo mais claro. Na tabela do Paraná de 2018, o implante ósseo integrado somava R$ 480,60 de honorário e custo operacional, com os insumos marcados como "Negoc.". O implante e os componentes ficam fora da conta, a negociar.
Por isso o valor de referência parece "defasado" frente ao particular. Ele não foi feito para cobrir o pacote completo de um tratamento de alto ticket.
Se você ainda não sabe quanto custa uma hora da sua cadeira, comece por aí: veja como calcular o custo-hora de cadeira e como contabilizar laboratório e material por procedimento.
Minha clínica particular é obrigada a seguir a VRPO ou a CBHPO?
Não. Nenhuma das duas é uma tabela de preço de cumprimento obrigatório para o atendimento particular.
Três evidências diretas:
- O CRO-MG diz com todas as letras. Na página de perguntas frequentes do conselho: "O CRO-MG não possui nenhuma tabela de honorários estipulando o valor dos procedimentos odontológicos." Os honorários "devem ser estipulados pelo próprio Cirurgião-Dentista" com base no Código de Ética.
- O Código de Ética garante a liberdade de preço. O art. 19 do Código de Ética Odontológica lista o que considerar na fixação de honorários: condição socioeconômica do paciente, conceito do profissional, costume do lugar, complexidade, tempo, custo operacional e, no inciso X, "a liberdade para arbitrar seus honorários, sendo vedado o aviltamento profissional".
- As entidades tratam como referência. O CRO-PE divulga a "tabela de referência", e o SOERGS chama a CBHPO de "parâmetro seguro" e de "importante instrumento na negociação com as operadoras".
O parágrafo único do art. 19 acrescenta um dever prático: você deve arbitrar o valor e comunicar previamente ao paciente os custos dos honorários.
Então existe liberdade total? Quase. Tem uma pegadinha.
A pegadinha do art. 21: o piso ético contra o aviltamento
O art. 21 do Código de Ética Odontológica é onde os valores referenciais ganham peso ético:
"O cirurgião-dentista deve evitar o aviltamento ou submeter-se a tal situação, inclusive por parte de convênios e credenciamentos, de valores dos serviços profissionais fixados de forma irrisória ou inferior aos valores referenciais para procedimentos odontológicos."
Leia de novo e repare em três coisas.
Primeiro, é um piso, não um teto. O artigo manda evitar valores irrisórios ou abaixo da referência. Nada nele limita quanto você cobra para cima.
Segundo, vale para o convênio também. O texto cita expressamente "convênios e credenciamentos". Aceitar tabela de operadora muito abaixo da referência é exatamente a situação que o artigo descreve.
Terceiro, a quem ele se dirige. O art. 21 fala do cirurgião-dentista. Mas não trate isso como salvo-conduto para a clínica: o art. 1º diz que o Código regula os direitos e deveres do cirurgião-dentista, dos técnicos e auxiliares "e pessoas jurídicas que exerçam atividades na área da Odontologia". A clínica, como pessoa jurídica, também está dentro do Código.
E o art. 21 continua valendo depois das mudanças de 2025? Continua. A Resolução CFO-271/2025, que alterou o Código em cumprimento à decisão do CADE, mexeu nos arts. 20, 32 e 44. O art. 21 não foi tocado (detalhes na próxima seção).
Lembre: a tabela não diz quanto você pode cobrar. Ela diz abaixo de quanto o seu preço começa a parecer aviltamento.
CADE e livre precificação: o que mudou de 2023 a 2025
Se você acompanhou as notícias, sabe que o desconto na odontologia virou caso de defesa da concorrência. Veja a sequência, na fonte oficial de cada passo:
| Data | O que aconteceu | Fonte |
|---|---|---|
| 02/08/2023 | O CADE celebra Termo de Compromisso de Cessação com o CRO-MG, investigado por proibir clínicas de aceitar cartão de desconto | CADE |
| 16/08/2023 | O CADE condena o CFO por impedir dentistas de oferecer descontos, com multa de R$ 752,7 mil, e determina a alteração do Código de Ética | CADE |
| 13/03/2025 | O CRO-RO comunica a medida preventiva do CADE no Inquérito Administrativo 05/2025, aberto por denúncia de "proibição de concessão de descontos e suposta interferência na livre precificação de serviços profissionais" | CRO-RO |
| 18/06/2025 | O CFO publica a Resolução CFO-271/2025 e altera o Código de Ética | CFO |
Na medida preventiva do Inquérito 05/2025, comunicada pelo CRO-RO, o CADE determinou aos conselhos que excluíssem publicações que associassem a concessão de descontos a ilícito ou conduta antiética e suspendessem processos movidos contra profissionais por oferecer desconto.
O que a Resolução CFO-271/2025 mudou, artigo por artigo:
| Dispositivo | O que mudou |
|---|---|
| Art. 20, VIII | Saiu "descontos" do rol; ficou vedado oferecer serviços como brinde, premiação e sorteios |
| Art. 20, X | Saíram cartão de descontos, caderno de descontos e "gift card"; ficaram "vale presente" e similares e demais atividades mercantilistas |
| Art. 32, XIII | Revogado (tratava da participação em cartões de desconto) |
| Art. 44, XIV | Saíram cartão de descontos, caderno de descontos, mala direta via internet, sites promocionais ou de compras coletivas e stands promocionais; continua infração oferecer serviço com finalidade de aliciamento por telemarketing ativo, caixas de som, plaqueteiros e outros meios de concorrência desleal |
| Art. 21 | Não alterado |
O resumo prático para o dono de clínica:
- O desconto saiu do rol de infrações do art. 20. O texto anterior do inciso VIII citava "descontos"; o novo cita brinde, premiação e sorteios.
- O dever do art. 21 segue no texto. Fixar valores irrisórios ou inferiores aos referenciais continua sendo o que o Código manda evitar.
- O CADE protege a livre pactuação de preços. Na medida preventiva de agosto de 2022, citada na notícia do acordo com o CRO-MG, o CADE mandou CFO e CRO-MG cessarem atos contra a aceitação de cartões de desconto ou contra a "livre pactuação de preços". E o relator afirmou que se presume poder de mercado dos conselhos profissionais, pela possibilidade de aplicarem sanções disciplinares.
As duas coisas convivem. E, se o seu modelo é particular de alto ticket, vale olhar também o risco oposto: usar o valor da tabela como âncora e deixar de cobrar o que o seu custo e o seu posicionamento exigem.
Publicidade de preço: o que a lei e o Código ainda dizem
A liberdade de precificar não é a mesma coisa que liberdade de anunciar preço. São regras diferentes.
Lei 5.081/1966, que regula o exercício da odontologia. O art. 7º, alínea "g" veda ao cirurgião-dentista "anunciar preços de serviços, modalidades de pagamento e outras formas de comercialização da clínica que signifiquem competição desleal". A regra é dirigida ao profissional.
Código de Ética, art. 44, I. O texto do Código publicado pelo CFO define como infração fazer publicidade enganosa ou abusiva, inclusive "com preços, serviços gratuitos, modalidades de pagamento, ou outras formas que impliquem comercialização da Odontologia". A Resolução CFO-271/2025 não alterou esse inciso.
E a clínica, como empresa? O art. 46 do Código estende as normas do capítulo de publicidade a pessoas físicas ou jurídicas, "tais como: clínicas, policlínicas, operadoras de planos". E o art. 45 diz que, pela publicidade em desacordo com o Código, "respondem solidariamente os proprietários, responsável técnico e demais profissionais que tenham concorrido na infração".
Em outras palavras: o que mudou com o CADE foi o tratamento do desconto. A regra sobre anunciar preço em publicidade continua no texto da lei e do Código.
Dica: antes de colocar preço ou condição de pagamento em anúncio, alinhe a peça com o responsável técnico e com a assessoria jurídica. Proprietário e RT respondem juntos.
Onde a tabela realmente pesa: negociação com operadoras
No particular, a CBHPO é referência. No convênio, ela é a régua de toda a conversa.
Três motivos:
- A nomenclatura é a mesma. Segundo a apresentação oficial da CBHPO hospedada pelo CRO-PR, as reuniões com a ANS em 2009 unificaram a nomenclatura, e "a TUSS odontológica contempla a integralidade da CBHPO". O CFO compara valores de operadoras usando o código TUSS de cada procedimento.
- O contrato é obrigatório. A Lei 13.003/2014 incluiu o art. 17-A na Lei 9.656/1998, a lei dos planos de saúde: as condições de prestação de serviços aos planos "serão reguladas por contrato escrito", com a definição dos valores, dos critérios, da forma e da periodicidade do reajuste. O reajuste é anual, no prazo de 90 dias do início de cada ano; vencido o prazo, a ANS, quando for o caso, define o índice. A regra alcança o profissional pessoa física e o estabelecimento pessoa jurídica.
- O art. 21 cita o convênio. O dever de evitar valores inferiores aos referenciais inclui, expressamente, "convênios e credenciamentos".
Repare no que a lei não diz: o art. 17-A exige contrato com valores e reajuste, mas não fixa a CBHPO como piso. É por isso que o CFO fala em "continuar lutando para que a CBHPO seja cumprida pelas operadoras em sua integralidade".
O abismo entre o que o convênio paga e a referência
Quanto os convênios pagam em relação à tabela? A resposta honesta: os dados disponíveis são estudos pontuais, com recortes e anos diferentes, que apontam na mesma direção:
| Estudo (ano) | Recorte | O que encontrou |
|---|---|---|
| Arquivos em Odontologia, pesquisadores da UNESP de Araçatuba (2011) | Tabelas de cinco planos de abrangência nacional comparadas à VRCC do CFO | Desconto médio de 54,51% sobre os preços sugeridos pelo CFO; nos preventivos, 57,09% em média |
| CFO, comparativo de operadoras (2012) | Autogestão, cooperativas e odontologia de grupo | Autogestão não chegava a 50% da CBHPO; odontologia de grupo nem chegava a 20%; diferença de até 200% entre operadoras em alguns procedimentos |
| Odontologia Clínico-Científica, Maceió (2015) | Três planos de Maceió, procedimentos de dentística, comparados à VRPO | Maiores descontos na resina fotopolimerizável: 81 a 87%, em média |
| Revista da APCD, Maceió (2016) | Três planos de Maceió, todas as categorias, comparados à VRPO | No plano que pior remunerou, defasagem média geral de 65% |
| Cuadernos de Educación y Desarrollo (2024) | Tabelas de seis instituições comparadas à CBHPO | Restauração de resina de uma face paga a R$ 23,00, contra R$ 166,00 na CBHPO (diferença de 86,14%); nenhum convênio cobria implante |
Duas leituras importantes.
Primeiro, o recorte manda. Os números de Maceió valem para três planos de uma cidade; o de 2011, para cinco planos nacionais; o de 2024, para seis instituições. Não dá para transformar nenhum deles em "o convênio paga X% da tabela" no Brasil inteiro.
Segundo, a direção é consistente. Em todos os recortes, o convênio pagou abaixo da referência, às vezes muito abaixo.
Se a sua clínica ainda depende de convênio e você pensa em migrar para o particular, veja como reposicionar a clínica de convênio para particular de alto ticket.
Como usar a VRPO e a CBHPO na clínica de R$ 100 mil+ por mês
A tabela é útil. Só não do jeito que a maioria usa.
Use a tabela para quatro coisas, nesta ordem:
1. Como piso ético. Nenhum procedimento da sua tabela particular deveria ficar abaixo do valor de referência do seu estado, no ano vigente. Se ficar, você está no território que o art. 21 manda evitar.
2. Como checagem de coerência entre procedimentos. A escala de pontos é boa para achar distorção interna. Exemplo com a tabela do Paraná de 2018: o implante ósseo integrado tem 400 UH, quatro vezes a consulta. Se, na sua tabela, a relação entre dois procedimentos estiver muito fora da proporção da CBHPO, investigue: um deles pode estar mal precificado.
3. Como régua de convênio. Antes de assinar ou renovar credenciamento, compare procedimento a procedimento o que a operadora paga com o valor de referência. Esse é o uso para o qual a tabela nasceu.
4. Como argumento de negociação, nunca como âncora de venda. A tabela ajuda a mostrar a uma operadora que o valor proposto é aviltante. Na conversa com o paciente particular, ela não agrega: o paciente de alto ticket não compra pela tabela do conselho.
E de onde sai o preço particular? De outra conta:
| O que compõe o preço | Onde aparece na tabela da CBHPO | De onde vem no seu preço |
|---|---|---|
| Honorário profissional | Coluna UH, em pontos relativos | Seu posicionamento e especialização |
| Custo operacional da cadeira | Coluna UC, pela média da metodologia | Seu custo-hora real |
| Laboratório | Coluna própria, muitas vezes "Negoc." | Seu contrato com o laboratório |
| Implante, componentes e insumos variáveis | Coluna "Outros insumos", muitas vezes "Negoc." | Seu fornecedor |
| Custo de aquisição do paciente | Sem coluna própria | Custo por paciente que comparece e fecha |
| Impostos e taxas financeiras | Sem coluna própria | Seu regime tributário e meios de pagamento |
| Margem | Sem coluna própria | Sua meta de resultado |
O método é o inverso do que a tabela sugere. Você parte do custo real (custo-hora, laboratório, insumos, aquisição, tributos), soma a margem que o negócio precisa e ajusta pelo valor percebido que o seu posicionamento sustenta. Depois, confere se o resultado passa no piso da referência.
Para a parte de valor percebido, veja como precificar por valor percebido em vez de custo.
Lembre: o paciente de alto ticket compara confiança, resultado e experiência. A tabela do conselho não entra nessa conversa. Seu preço precisa pagar o custo de trazer esse paciente até a cadeira, e a CBHPO não tem linha para isso.
Onde encontrar a tabela do seu estado (e qual fonte evitar)
Procure sempre a fonte que publica o multiplicador local:
- O CRO do seu estado. Vários conselhos mantêm páginas sobre a CBHPO, como o CRO-PE e o CRO-RS.
- O sindicato de odontologistas do estado. É comum que ele publique a planilha com a UH estadual, como o SOERGS e o SOEPAR, cuja tabela o CRO-PR divulgou em 2018.
- O ano da planilha. Tabela sem data não serve. Segundo o SOERGS, a UH muda todo ano em julho.
E qual fonte evitar? O antigo portal cbhpo.com.br. Foi nesse endereço que o CFO lançou, em fevereiro de 2021, o novo portal da CBHPO: é para ele que aponta a notícia do CRO-MT. Mas, na checagem feita para este guia, o endereço cbhpo.com.br aparecia como domínio estacionado, sem a tabela. Páginas de conselhos regionais, como a do CRO-AL, ainda apontam para ele.
Também desconfie de tabelas "prontas" em sites de software ou blogs sem data, sem estado e sem indicação de UH e UC. Sem esses três dados, o número não diz nada.
Seu próximo passo
- Baixe a tabela vigente do seu estado no CRO ou no sindicato e confira o ano. Marque os procedimentos em que o seu preço particular fica abaixo da referência: esses são os únicos que merecem revisão por causa da tabela.
- Refaça o preço dos seus cinco procedimentos de maior ticket a partir do custo real: custo-hora de cadeira, laboratório, implante e componentes, custo de aquisição do paciente, tributos e margem. Use a CBHPO só para checar a coerência entre eles.
- Meça quanto custa trazer esse paciente até a cadeira. Se o seu preço não sabe o custo por paciente que comparece e fecha, ele está incompleto, com ou sem tabela.
Quer que o preço do seu alto ticket seja sustentado por uma agenda previsível de pacientes que comparecem? Agende uma apresentação.
Perguntas frequentes
A tabela VRPO ainda existe?
Como nome, sim, mas a referência nacional hoje é a CBHPO. A VRPO foi aprovada em setembro de 2002 e serviu de base para a CBHPO, que a FIPE-USP construiu a partir de 521 procedimentos da VRPO. O CRO-RS apresenta a CBHPO como substituta da tabela de referência VRPO, e muita gente ainda chama tudo de "tabela VRPO" por hábito.
Minha clínica particular é obrigada a cobrar pela CBHPO?
Não. A CBHPO é uma classificação de valores relativos, e o CRO-MG informa que não possui tabela de honorários: o preço é arbitrado pelo profissional com base nos critérios do art. 19 do Código de Ética. O limite é o aviltamento, que o art. 21 associa a valores irrisórios ou inferiores aos referenciais.
Posso cobrar abaixo da CBHPO ou dar desconto?
O art. 21 do Código de Ética pede ao cirurgião-dentista que evite valores irrisórios ou inferiores aos referenciais, e a Resolução CFO-271/2025 não mexeu nesse artigo. Ao mesmo tempo, a mesma resolução tirou o desconto do rol de infrações do art. 20, VIII, depois da condenação do CFO pelo CADE em 2023. O desconto saiu do rol do art. 20; fixar valores irrisórios ou inferiores aos referenciais continua sendo o que o art. 21 manda evitar.
Como calculo o valor da CBHPO no meu estado?
Multiplique os pontos de honorário (UH) pelo valor estadual da UH e os pontos de custo (UC) pelo índice da UC, e some. Na tabela divulgada pelo CRO-PR em 2018, a consulta tinha 100 UH vezes 0,96 mais 10 UC vezes 0,46, o que dava R$ 100,60. Laboratório e insumos marcados como "Negoc." ficam fora da conta.
Onde encontro a tabela CBHPO atualizada?
No site do CRO ou do sindicato de odontologistas do seu estado, que publicam o multiplicador local. O SOERGS informa que cada estado atualiza a UH anualmente em julho. O antigo portal cbhpo.com.br não é uma fonte confiável hoje: na checagem feita para este guia, o endereço aparecia como domínio estacionado.
A operadora de plano odontológico é obrigada a pagar a CBHPO?
A Lei 13.003/2014 exige contrato escrito com a operadora, com valores, critérios e periodicidade de reajuste definidos, e reajuste anual, mas não fixa a CBHPO como piso. O próprio CFO, em comparativo de 2012, falava em continuar lutando para que a CBHPO fosse cumprida pelas operadoras em sua integralidade.