Custos e ROI

Teto de endividamento: quanto do faturamento da clínica pode ir para parcelas de empréstimo e financiamento?

Não existe percentual único do faturamento que sirva como teto de parcelas. O teto correto se calcula sobre a geração de caixa operacional da sua clínica, não sobre a receita bruta. Veja a régua (índice de cobertura do serviço da dívida), o cálculo linha por linha, o custo atual do crédito PJ com fonte do Banco Central e os sinais de que você já passou do limite.

Vinícius Ragazzi
Por Vinícius RagazziAtualizado em 12 de setembro de 2026 · 21 min de leitura
TL;DR

Não existe percentual único do faturamento. O teto sai da geração de caixa operacional do mês dividida pelo serviço da dívida do mês, e esse índice precisa ficar acima de 1,0 com folga para o seu pior mês dos últimos 12.

Pontos-chave
  • Não existe teto oficial para empresa. A única métrica oficial brasileira de quanto da renda vai para parcela mede FAMÍLIAS: o comprometimento de renda das famílias com o serviço da dívida no Sistema Financeiro Nacional foi de 28,85% em junho de 2026, com ajuste sazonal, na série 29034 do SGS do Banco Central do Brasil. Não há equivalente para a sua clínica, então o teto tem que ser calculado dentro de casa.
  • O tipo de contrato muda a conta antes do valor. A taxa média de juros das novas operações de crédito com recursos livres para pessoa jurídica em capital de giro rotativo foi de 34,86% ao ano em julho de 2026, contra 23,55% ao ano no capital de giro com prazo superior a 365 dias no mesmo mês, séries 20724 e 20723 do SGS do Banco Central do Brasil.
  • Prazo é a alavanca da parcela. O prazo médio das novas concessões de crédito com recursos livres para pessoa jurídica em capital de giro total foi de 34,21 meses em julho de 2026, segundo a série 20863 do SGS do Banco Central do Brasil, cuja unidade declarada é meses. Alongar derruba a parcela do mês e aumenta o juro total pago.

Faz parte do guia: Quanto custa e qual o retorno do marketing para clínica odontológica?

Nesta página
  1. TL;DR
  2. Pontos-chave
  3. Serviço da dívida não é "a parcela do banco"
  4. Endividamento x comprometimento: estoque contra fluxo
  5. Por que medir o teto sobre faturamento bruto é o erro de partida
  6. A régua correta: índice de cobertura do serviço da dívida (ICSD)
  7. Como calcular o teto da sua clínica, linha por linha
  8. Quanto custa o crédito PJ hoje, por tipo de contrato
  9. Prazo é a alavanca da parcela (e o preço dessa alavanca)
  10. Os tipos de dívida que a clínica acumula (e as invisíveis)
  11. O descasamento de prazo típico da odontologia
  12. Inadimplência do paciente derruba o numerador
  13. Os meses em que o teto aperta sem ninguém tocar na dívida
  14. O erro que mais quebra clínica endividada: cortar marketing para pagar a parcela
  15. Capacidade instalada é um teto físico, não financeiro
  16. Garantias, aval e a mistura de patrimônio
  17. Sinais objetivos de que você já passou do teto
  18. A ordem correta de arrumação quando passou do teto
  19. Quando tomar dívida é a decisão certa
  20. Checklist antes de assinar contrato de crédito PJ
  21. Seu próximo passo
  22. Perguntas frequentes

"Quanto do faturamento da minha clínica pode estar comprometido com parcelas de empréstimo e financiamento?"

Você quer um número redondo. Algo como "até tantos por cento do faturamento".

Esse número não existe. E procurar por ele é justamente o que coloca clínica lucrativa na UTI de caixa.

Pensa assim: duas clínicas faturam igual, pagam a mesma parcela e têm destinos opostos. Uma tem repasse alto de especialista e metade da receita presa em parcelamento próprio. A outra tem dentista sócio e recebe muito à vista. O mesmo percentual mata uma e nem coça a outra.

O teto não se mede sobre faturamento. Ele se mede sobre o dinheiro que sobra depois de a operação girar.

E não existe régua oficial para empresa. A única métrica oficial brasileira de quanto da renda vai para parcela mede famílias: o comprometimento de renda das famílias brasileiras com o serviço da dívida no Sistema Financeiro Nacional foi de 28,85% em junho de 2026, com ajuste sazonal, segundo a série 29034 do SGS do Banco Central do Brasil (28,49% em maio de 2026). Escopo: famílias, não empresas. Para a sua clínica, o teto você calcula.

Neste guia você vai ver:

  • Por que faturamento bruto é o denominador errado, e qual é o certo
  • A régua real: índice de cobertura do serviço da dívida (ICSD) e por que 1,0 já é estar quebrado
  • O cálculo do seu teto linha por linha, com exemplo hipotético fechado
  • Quanto custa o crédito PJ hoje por tipo de contrato, com fonte do Banco Central
  • As dívidas que não aparecem na sua planilha e derrubam o cálculo
  • Os sinais objetivos de que você já passou do teto, e a ordem certa de arrumação

Serviço da dívida não é "a parcela do banco"

Antes de calcular qualquer teto, você precisa somar a coisa certa.

Serviço da dívida é tudo que sai do caixa no mês para honrar dívida: juros mais amortização de todos os contratos ativos, somados. Não é só a parcela do empréstimo que você lembra de cabeça.

Entra nessa soma:

  • A parcela do capital de giro.
  • A parcela do financiamento do equipamento (cadeira, tomógrafo, scanner).
  • A contraprestação do leasing.
  • A parcela do consórcio, incluindo taxa de administração.
  • Os juros do cheque especial ou da conta garantida que você usa "só no fim do mês".
  • O rotativo do cartão de crédito da pessoa jurídica.
  • A parcela do tributo parcelado.
  • O custo da antecipação de recebíveis e do desconto de carnê próprio.

É comum somar as três primeiras linhas e chamar isso de dívida da clínica. O caixa soma todas.

Lembre: o número que quebra a clínica não é o saldo devedor total. É a soma do que vence neste mês.

Endividamento x comprometimento: estoque contra fluxo

Essas duas palavras andam juntas na conversa com o gerente e significam coisas diferentes.

Conceito O que mede Pergunta que responde Quem quebra a clínica
Endividamento (estoque) Saldo devedor total de todos os contratos "Quanto eu devo?" Raramente, isolado
Comprometimento (fluxo) Serviço da dívida do mês contra o caixa gerado no mês "Eu consigo pagar em setembro?" Quase sempre

Clínica com dívida grande e prazo longo dorme tranquila. Clínica com dívida pequena vencendo toda semana entra em pânico.

O estoque define quanto você paga de juros no total da vida do contrato. O fluxo define se você atravessa o mês. Este guia trata do fluxo, que é o que responde à sua pergunta.

Por que medir o teto sobre faturamento bruto é o erro de partida

Faturamento bruto é o número que você fala em congresso. Não é o número que paga parcela.

Entre o faturamento e o caixa que sobra existem saídas obrigatórias, na ordem em que acontecem:

  1. Imposto sobre a receita, conforme o regime tributário da clínica.
  2. Repasse de dentista e especialista, quase sempre um percentual do procedimento executado.
  3. Insumo, prótese e laboratório do caso que foi entregue.
  4. Taxa de cartão e custo de antecipação, que descontam antes de o dinheiro entrar.
  5. Custo fixo: aluguel, folha da equipe de apoio, software, energia, manutenção.
  6. Pró-labore, que é custo, não sobra.
  7. Verba de marketing, que sustenta a receita do mês seguinte.

Só depois disso existe geração de caixa. Um teto definido sobre a linha de cima ignora sete linhas de saída.

O detalhe que faz diferença: o peso dessas linhas varia brutalmente entre clínicas do mesmo tamanho. Clínica com muito especialista terceirizado tem repasse alto e margem de contribuição menor. Clínica de implante tem insumo caro e prazo de laboratório. Por isso nenhum percentual único funciona.

Se você ainda não separa essas linhas por procedimento, comece por aí. Sem margem de contribuição medida, qualquer teto é chute.

A régua correta: índice de cobertura do serviço da dívida (ICSD)

Aqui está a métrica que o banco usa e que você deveria usar antes dele.

ICSD = geração de caixa operacional do mês ÷ serviço da dívida do mês.

O que cada resultado significa:

  • Abaixo de 1,0: o caixa gerado pela operação não paga a parcela. A diferença sai da reserva, do rotativo ou do fornecedor. É o estado de quem está rolando dívida.
  • Exatamente 1,0: cada real gerado pela operação vai embora na parcela. Zero folga. Um mês fraco, um equipamento quebrado ou uma glosa e você entra em 0,9.
  • Acima de 1,0: existe folga. Quanta folga você precisa não é palpite: é o tamanho da queda do seu pior mês.

Repare no ponto que quase todo mundo erra: 1,0 não é o alvo, é o chão do desastre. Ficar em 1,0 significa que a clínica trabalhou o mês inteiro para o banco e não guardou nada para o mês ruim, que sempre vem.

E como você define a folga sem inventar número? Olhe os seus últimos 12 meses de caixa, ache o mês de pior geração e calcule quanto ele ficou abaixo da média. Essa diferença, em reais, é a reserva que precisa caber antes da parcela. Clínica com receita estável precisa de pouca folga. Clínica sazonal precisa de muita.

Como calcular o teto da sua clínica, linha por linha

Faça em uma planilha de uma coluna, com dados dos últimos 12 meses. Use extrato bancário, não relatório de orçamento aprovado.

  1. Receita que ENTROU no mês. Dinheiro na conta, não venda contratada. Parcelado próprio entra pela parcela recebida, não pelo valor do tratamento.
  2. Menos imposto incidente sobre essa receita.
  3. Menos custo variável: repasse de profissional, insumo, prótese, laboratório, taxa de cartão.
  4. Igual a margem de contribuição em caixa.
  5. Menos custo fixo da estrutura.
  6. Menos pró-labore da sociedade.
  7. Menos verba de marketing que mantém a entrada de paciente novo.
  8. Igual a geração de caixa operacional.
  9. Menos reserva do tamanho da queda do seu pior mês dos últimos 12.
  10. Igual ao teto de serviço da dívida. É este o número que você compara com a soma das suas parcelas.

Exemplo hipotético fechado (números inventados para mostrar a mecânica)

Os valores abaixo são inventados. Eles existem só para você ver a conta andar. Substitua cada linha pelos seus.

Linha Valor no exemplo hipotético
Receita que entrou no mês R$ 400.000
(-) Imposto sobre a receita R$ 26.000
(-) Repasse de dentistas e especialistas R$ 96.000
(-) Insumo, prótese e laboratório R$ 40.000
= Margem de contribuição em caixa R$ 238.000
(-) Custo fixo da estrutura R$ 120.000
(-) Pró-labore R$ 30.000
(-) Verba de marketing R$ 30.000
= Geração de caixa operacional R$ 58.000
(-) Reserva para o pior mês medido R$ 18.000
= Teto de serviço da dívida R$ 40.000

Nesse exemplo, se as parcelas somam R$ 40.000, o ICSD fica em 1,45 (58.000 dividido por 40.000). Se elas somam R$ 58.000, o índice cai para 1,0 e a clínica trabalha o mês para o banco.

Agora repare no detalhe mais importante do exemplo: o teto de R$ 40.000 equivale a 10% do faturamento bruto dessa clínica hipotética. Esse 10% não serve para nenhuma outra, porque ele é o resultado das dez linhas acima, não uma regra. Uma clínica com repasse mais alto e custo fixo maior chega a um teto muito menor com o mesmo faturamento.

É por isso que percentual de bolso sobre faturamento é conselho perigoso: ele entrega a resposta sem a conta.

Quanto custa o crédito PJ hoje, por tipo de contrato

O tipo de contrato muda a parcela antes de qualquer negociação de valor. E a diferença é medida pelo Banco Central, mês a mês.

Linha de crédito PJ (recursos livres) Taxa média das novas operações, julho de 2026 Fonte
Capital de giro rotativo 34,86% ao ano (34,71% em junho de 2026) Série 20724 do SGS do Banco Central do Brasil
Capital de giro com prazo superior a 365 dias 23,55% ao ano (21,58% em junho de 2026) Série 20723 do SGS do Banco Central do Brasil

A taxa do giro com prazo acima de 365 dias ficou em pouco mais de dois terços da taxa do giro rotativo no mesmo mês. Mesmo banco, mesma clínica, mesmo risco: muda o instrumento.

O que isso significa na prática? Boa parte do "aperto de caixa" que o dono atribui a faturamento fraco é composição errada de dívida. Ele está financiando um ativo de vários anos com o instrumento mais caro da prateleira.

Tem um segundo movimento, e esse você não controla: quando a inadimplência do crédito para pessoa jurídica sobe no país, o banco reprecifica o risco da carteira inteira. O efeito chega no seu próximo contrato como taxa mais alta, exigência de garantia maior ou limite menor, mesmo que a sua clínica não tenha atrasado um único boleto. É por isso que se contrata prazo quando a janela está boa, não quando a necessidade aperta.

Antes de assinar qualquer linha nova, vale entender a mecânica de cada uma em linha de crédito e empréstimo PJ para capital de giro.

Prazo é a alavanca da parcela (e o preço dessa alavanca)

Prazo é a única variável que derruba a parcela do mês sem você faturar um real a mais.

O prazo médio das novas concessões de crédito com recursos livres para pessoa jurídica em capital de giro total foi de 34,21 meses em julho de 2026, segundo a série 20863 do SGS do Banco Central do Brasil, cuja unidade declarada pelo próprio Banco Central é meses.

Como a alavanca funciona:

  • Alongar o prazo derruba a parcela mensal. É o movimento que salva o ICSD sem tocar na operação.
  • Alongar o prazo aumenta o juro total pago ao longo do contrato. Você compra folga de caixa com dinheiro.
  • Encurtar o prazo economiza juro total e sufoca o mês. É o erro clássico de quem negocia olhando só a taxa.

A decisão fica clara quando você separa os dois problemas: se o problema é solvência (a clínica não gera caixa), prazo não resolve, só adia. Se o problema é liquidez (a clínica gera caixa mas o vencimento está errado), prazo é exatamente a ferramenta.

Juro nominal x juro real: compare com a inflação, não com a sua esperança

Uma taxa anual só quer dizer algo quando você a compara com a inflação acumulada em 12 meses medida pelo IBGE.

O que está acima da inflação é juro real: custo de verdade, que consome margem futura. Dívida longa não "derrete" sozinha com o tempo quando a taxa contratada roda muito acima da variação de preços. Contar com essa diluição é a aposta silenciosa de quem alonga prazo e continua tomando.

Os tipos de dívida que a clínica acumula (e as invisíveis)

Aqui está a razão mais comum de o cálculo dar errado: metade da dívida não está na planilha de dívida.

Tipo O que é Aparece na sua planilha de dívida? Entra no serviço da dívida do mês
Capital de giro parcelado Empréstimo com parcela fixa e prazo definido Sim Sim
Conta garantida / cheque especial Limite rotativo na conta da clínica Quase nunca Sim, pelos juros do período
Rotativo do cartão da PJ Fatura paga parcialmente Quase nunca Sim
CDC de equipamento Financiamento de cadeira, tomógrafo, scanner Sim Sim
Leasing / arrendamento Uso do bem com contraprestação mensal Às vezes Sim
Consórcio Parcela mais taxa de administração Às vezes Sim, como saída obrigatória
Tributo parcelado Parcelamento de imposto em atraso Raramente Sim
Antecipação de recebíveis de cartão Você recebe hoje menos do que receberia depois Não Sim, pelo custo do desconto
Desconto de carnê próprio Cessão do recebível do parcelamento próprio Não Sim, pelo custo do desconto

As duas últimas linhas são as que mais enganam. Elas não chegam como empréstimo: chegam como um crédito menor na conta. Não tem boleto, não tem contrato na gaveta, não tem parcela com data. Tem custo.

Se você antecipa todo mês para fechar a folha, isso não é gestão de caixa. É dívida rolando com outro nome. A comparação honesta entre as duas rotas está em antecipar recebível ou tomar crédito, qual custa menos.

O descasamento de prazo típico da odontologia

Esta é a armadilha estrutural do nosso setor, e ela não tem nada a ver com incompetência de gestão.

Suponha um protocolo fechado hoje, parcelado pelo paciente ao longo de um ano. A execução consome cadeira, hora de dentista, insumo e laboratório nos primeiros meses. O caixa entra devagar, mês a mês.

Agora olhe a dívida que financiou aquela cadeira: ela vence em 30 dias. Depois em 30 dias. Depois em 30 dias.

Você vendeu em 12 meses e paga em 1. Esse é o descasamento.

O efeito aparece no ciclo financeiro, que é a conta clássica:

Ciclo financeiro = prazo médio de recebimento + prazo médio de estoque - prazo médio de pagamento a fornecedor.

Traduzindo para a clínica:

  • Prazo médio de recebimento sobe com parcelamento próprio longo e com convênio que paga semanas depois do atendimento.
  • Prazo médio de estoque inclui o tempo em que o material e a peça do laboratório ficam paradas esperando a próxima sessão.
  • Prazo médio de pagamento é o prazo que o seu fornecedor te dá.

Ciclo positivo e longo significa uma coisa só: você está financiando o tratamento do paciente com o seu capital. Quanto mais longo o ciclo, mais giro a operação consome, e menos espaço existe para serviço da dívida no mesmo mês.

Antes de tomar a próxima linha, dimensione de quanto giro a operação precisa para atravessar esse ciclo sem recorrer ao banco todo mês.

Inadimplência do paciente derruba o numerador

O teto se calcula sobre o que entra, não sobre o que foi contratado. Parece óbvio e quase ninguém faz.

Quando você monta o cálculo com a receita contratada, o ICSD fica bonito. Depois o carnê atrasa, o cartão nega a recorrência, o paciente desaparece no meio do tratamento. O denominador (a parcela do banco) não se mexe. O numerador encolhe.

O que fazer, na prática:

  • Meça a sua taxa real de perda no parcelamento próprio, mês a mês, e desconte-a da receita projetada.
  • Reconheça receita de parcelado no caixa, pela parcela efetivamente recebida.
  • Trate atraso recorrente como custo estrutural, não como exceção.

Se você ainda não provisiona essa perda, o teto que você calculou está superestimado, e a diferença aparece no mês em que o carnê falha.

Os meses em que o teto aperta sem ninguém tocar na dívida

O teto não é um número anual. Ele muda de mês.

Três eventos previsíveis comprimem a geração de caixa sem nenhuma alteração na dívida:

  1. Sazonalidade da agenda. Mês de férias, feriado emendado e período de menor procura reduzem a receita que entra, com custo fixo intacto.
  2. 13º salário. A saída se concentra no fim do ano e não tem correspondência de receita.
  3. Recolhimento de tributo e acerto anual. A obrigação chega em data fixa, independente do seu caixa.

Se você calculou o teto na média do ano, nesses meses o ICSD cai abaixo de 1,0 e você recorre ao rotativo, que custa mais caro que a linha de giro com prazo, conforme as taxas médias que o Banco Central mede mês a mês. O aperto de um mês vira dívida caríssima de doze.

Dica: calcule o teto pelo mês mais fraco, não pela média. Se a parcela cabe no mês ruim, ela cabe no ano.

O erro que mais quebra clínica endividada: cortar marketing para pagar a parcela

Esta é a sequência que eu vejo repetir, e ela é quase sempre irreversível quando avança.

A parcela aperta. O dono procura o corte mais rápido e menos doloroso no curto prazo. Verba de anúncio não tem contrato de trabalho, não tem fornecedor cobrando, não reclama.

Ele corta. O caixa do mês melhora. Parece que funcionou.

Semanas depois a entrada de paciente novo seca. O faturamento cai. A parcela continua exatamente igual. Agora ele precisa cortar de novo, e cortou a única linha que trazia receita nova.

O nome disso é custo de reposição de faturamento: recomprar a receita que você desligou custa mídia, custa tempo e custa agenda. Segundo dados internos da Odonto Results (2026), o lead de clínica odontológica custa de R$12 a R$14 no Meta Ads. Base: cerca de 94,6 mil leads. Janela: agosto de 2023 a agosto de 2026.

Só que a mídia é a primeira linha da reposição, não a conta toda. Entre a verba religada e o paciente na cadeira existe um intervalo: o lead precisa ser qualificado, responder, agendar e comparecer. Quem desliga a torneira paga duas vezes, em dinheiro e em semanas de agenda vazia.

Nota: cortar mal é diferente de não cortar. Se a verba tem que cair, corte o canal que você mede como pior e mantenha o que traz paciente que comparece. A régua é custo por paciente na cadeira, não custo por lead. O raciocínio completo está em cortar custo ou investir em marketing quando o caixa aperta.

Capacidade instalada é um teto físico, não financeiro

Tem um limite que planilha nenhuma dissolve: você não pode crescer receita para pagar a parcela além do que a estrutura executa.

O teto físico da sua clínica é o produto de três coisas:

  • Cadeiras disponíveis por hora de funcionamento.
  • Horas de dentista habilitado para o procedimento que gera o ticket.
  • Ocupação real da agenda, descontados falta e remarcação.

Se a agenda já está em ocupação alta, "vender mais para pagar a parcela" não é plano, é desejo. A receita adicional só existe depois de mais cadeira ou mais hora clínica, que é exatamente o investimento que a dívida deveria ter financiado.

Esse é o teste que separa dívida boa de dívida ruim, e ele aparece na próxima seção.

Garantias, aval e a mistura de patrimônio

Quando o contrato tem aval do sócio, a dívida deixou de ser da pessoa jurídica na prática.

O que isso muda no cálculo do teto:

  • Aval transfere o risco para o seu patrimônio pessoal. O imóvel da família entra na conta de um contrato que você assinou pensando na clínica.
  • Alienação de equipamento deixa a operação exposta: perder a cadeira financiada é perder a capacidade de gerar a receita que pagaria a dívida.
  • Misturar conta pessoal e conta da clínica destrói a medição. Você deixa de saber qual é a geração de caixa operacional, e sem ela o ICSD não existe.

Separe as contas antes de calcular qualquer teto. Cálculo feito sobre conta misturada dá número, mas não dá informação.

Vale registrar uma assimetria honesta: negócio pequeno negocia crédito em condição pior que empresa grande, porque oferece menos garantia e menos histórico ao banco. Isso não é sobre merecimento, é sobre como o risco é precificado. A consequência prática é direta: quanto menor a estrutura, mais o dono precisa levar dado organizado para a mesa, porque o dado organizado é a garantia que ele pode produzir de graça.

Sinais objetivos de que você já passou do teto

Não são sensações. São eventos que você consegue apontar no extrato.

  1. Uso recorrente de rotativo ou cheque especial, não pontual, mês após mês.
  2. Antecipação de recebíveis para fechar a folha, virando rotina mensal.
  3. Atraso com fornecedor de insumo ou laboratório usado como financiamento informal.
  4. Tomar crédito novo para pagar parcela antiga, o sinal mais grave da lista.
  5. Pró-labore suspenso ou reduzido para cobrir o vencimento do mês.
  6. Dinheiro de sinal de tratamento não iniciado consumido no caixa do mês.
  7. Decisão comercial guiada por vencimento: desconto agressivo no fim do mês para adiantar recebimento.

Um item isolado pode ser um mês ruim. Vários deles, recorrentes, significam que o serviço da dívida já é maior que a geração de caixa e a diferença está sendo financiada por alguém.

A ordem correta de arrumação quando passou do teto

Ordem importa mais que intensidade. Fazer na sequência errada queima as opções boas.

  1. Pare de tomar dívida nova. Inclusive a barata. Enquanto entra linha nova, nenhuma medida abaixo se sustenta.
  2. Meça o serviço da dívida real. Some todos os contratos, incluindo rotativo, antecipação e desconto de carnê. Sem esse número, você negocia no escuro.
  3. Alongue o prazo do que já existe. É a medida que derruba a parcela mais rápido, sem tocar na operação. Custa juro total, compra sobrevivência.
  4. Troque dívida caríssima por dívida mais barata. Migrar rotativo para linha parcelada com prazo é a troca de maior efeito: a diferença entre as duas taxas médias é medida pelo Banco Central.
  5. Renegocie o que sobrou, com fluxo de caixa projetado na mão. Banco renegocia com quem mostra número, não com quem pede socorro.
  6. Só então mexa em custo, começando pelo que não gera receita. Verba de aquisição é a última linha, nunca a primeira.

O passo a passo de conversa com o banco está em renegociar dívidas da clínica sem asfixiar o caixa.

Quando tomar dívida é a decisão certa

Dívida não é vício, é ferramenta. O que define é o que ela compra.

Dívida que faz sentido compra capacidade para uma demanda que você já mede: agenda em ocupação alta, fila de espera real, procedimento com margem conhecida e dentista disponível para executar. A nova cadeira gera a receita que paga a parcela, e você consegue estimar em quantos meses.

Dívida que só compra tempo cobre prejuízo operacional. Ela não muda a causa, apenas transfere o problema para frente com juros. Se a clínica gera caixa negativo, crédito novo aumenta o serviço da dívida sem aumentar a geração de caixa, e o ICSD piora no mês seguinte.

O teste é uma pergunta só: esta dívida compra receita futura ou paga prejuízo passado?

Clínica não fecha por falta de lucro no papel. Fecha por falta de caixa no dia do vencimento. É por isso que essa pergunta vale mais que a taxa negociada.

Checklist antes de assinar contrato de crédito PJ

Leve isso impresso para a reunião. Em ordem.

  1. Qual é a modalidade exata? Giro rotativo, giro com prazo, CDC, leasing. A modalidade define a taxa antes da negociação.
  2. Qual é o custo total efetivo, incluindo tarifa de contratação, seguro e tributo embutido, não só a taxa nominal.
  3. Qual é o prazo e existe carência? Carência que casa com a maturação do investimento vale mais do que arrancar um desconto pequeno na taxa.
  4. A parcela cabe no meu mês mais fraco medido, não na média?
  5. Qual fica o meu ICSD depois desta parcela, somada a todas as outras?
  6. Que garantia estou dando, e ela inclui aval pessoal ou alienação do equipamento que gera receita?
  7. Existe multa de liquidação antecipada? Você pode querer quitar quando o caixa melhorar.
  8. Esta dívida compra capacidade com demanda medida ou tapa buraco?
  9. Se o faturamento cair, por quantos meses eu pago esta parcela com a reserva atual?

Se você não sabe responder o item 5, ainda não está pronto para assinar. Ele é o teto.

Seu próximo passo

  1. Monte a coluna do teto hoje. Pegue 12 meses de extrato e rode as dez linhas do cálculo até chegar ao teto de serviço da dívida. Compare com a soma real das suas parcelas, incluindo rotativo e antecipação. Você vai descobrir o seu ICSD em uma tarde.
  2. Recalcule pelo mês mais fraco. Se a parcela não cabe no pior mês dos últimos 12, alongue prazo antes de qualquer outra medida. Prazo é a alavanca que age no mês seguinte.
  3. Proteja a linha que traz paciente. Antes de cortar verba de aquisição para pagar parcela, meça custo por paciente que comparece por canal e corte pelo pior, não pelo mais fácil. Quem desliga a entrada de paciente troca um problema de caixa por um problema de faturamento.

Quer previsibilidade na entrada de paciente para o caixa da clínica parar de depender da próxima linha de crédito? Agende uma apresentação.

Perguntas frequentes

Existe um percentual seguro do faturamento para as parcelas de empréstimo da clínica?

Não. Qualquer percentual fixo sobre faturamento bruto ignora imposto, repasse de dentista e insumo, que saem do caixa antes de qualquer parcela. Duas clínicas com o mesmo faturamento e a mesma parcela podem estar em situações opostas. O teto se calcula sobre a geração de caixa operacional da sua clínica, mês a mês.

O pró-labore dos sócios entra na conta do teto de endividamento?

Sim, e antes da parcela. Pró-labore é custo da operação, não sobra. Se você calcula o teto contando com o dinheiro que vai sair para você viver, o índice de cobertura fica bonito no papel e estoura no dia 10. Coloque o pró-labore na linha de custo, depois veja o que resta para o serviço da dívida.

A parcela já passou do teto: qual é o primeiro passo?

Pare de tomar dívida nova, mesmo a barata. Depois alongue o prazo do que já existe para derrubar a parcela do mês, troque dívida caríssima de curtíssimo prazo por linha parcelada (a diferença de taxa entre giro rotativo e giro com prazo acima de 365 dias é medida pelo Banco Central), e só então renegocie o que sobrou. Corte de marketing vem por último, porque derruba o faturamento que paga a parcela.

Antecipação de recebíveis de cartão conta como dívida?

Conta. Você recebe hoje um valor menor do que receberia depois, e a diferença é custo financeiro. Não aparece como empréstimo na planilha porque chega como desconto no crédito, e é exatamente por isso que passa despercebida. Se você antecipa todo mês para fechar a folha, isso já é dívida rolando, e entra no cálculo do teto.

Posso usar os orçamentos aprovados no mês para calcular o teto?

Não. Orçamento aprovado é promessa, o teto se calcula sobre o que ENTRA na conta. Tratamento parcelado em muitas vezes vira receita contratada hoje e caixa ao longo de um ano, e a parcela do banco não espera. Use o extrato, não o contrato, e desconte a inadimplência real que você mede.

Cortar a verba de marketing para pagar a parcela funciona?

Quase nunca, e é o erro que mais acelera o problema. Você corta a entrada de paciente novo, o faturamento cai com atraso de algumas semanas, e a parcela continua igual. Se precisar cortar, corte o canal que você mede como pior, não a verba inteira, e olhe custo por paciente que comparece, não custo por lead.